Que ainda se sepultam por detrás do delírio.
Mais tarde, surgem tal como o sol, rotineiramente…
Assim se aclaram, e brotam do silêncio estridente!
Exaltam-se sublimemente iluminando e resplandecendo…
Florescem atingindo o seu clímax, luzindo vida a quem as lê.
Inspiram no crepúsculo o sopro breve da efemeridade,
Pois sabem não perdurar mais que o momento...
Aquele instante deslumbrante em que são lidas.
Persistem no espaço e no tempo,
Mas nunca nessa dimensão colateral tão difícil de ferir,
A iteração idêntica da original intuição…
(A Ternura da Leitura - 07/2006)
a fé de Amélia fazia crescer margaridas no seu jardim
as margaridas murcharam e Amélia rezou por piedademas não era de fé que elas precisavam era de água
choveu e lentamente a vida das plantinhas regressou
Amélia que tanto rezou, sorriu de felicidade, mas não regou
(Era Fé! - 08/2008)
Leonor
Cheirava a menta e canela,
ela fugia entre um mar de odores,
sem medos e sem cores...
O seu olhar luzia a pureza,
dos seus sonhos, do seu mundo.
Leonor de manto branco
corria esguia sem rumo
guiada apenas pela alegria,
ia colhendo sorrisos.
(Leonor - 08/2008)
O tempo fincou garras nessa pele que hoje toco, quero viver tudo o que não vivi, dizer tudo o que não disse, fazer tudo o que não fiz, em apenas meia hora e a única reacção que consigo exteriorizar é o imobilismo preso por um misto inexplicável de pesados sentimentos, mais mas muito mais pesados que nós. Por minha força ficava assim eternamente unido a si por medo que me deixasse, se fosse por vontade minha eu agarrava-a e sentia-a como sempre num toque que até podia parecer incenssível. Permanecemos assim num momento mágico só nosso que tudo o que nos rodeava não podia compreender, não eram necessárias palavras a sua pele marcada por derrotas e glórias, momentos únicos e maravilhosas histórias, conhecia como sempre o toque da minha pálida e virgem pele e isso bastava-nos... E agora num pranto quase consecutivo, e de certo nostálgico, recordo. Lembro-me da sua voz, do ar imperial, matriarca e orgulhoso com que me olhava, tão perto e tão longe, eu sei que não sei nem nunca vou saber lidar com isto mas só espero que lhe saibam dar o valor que merece quando partir. De súbito um aperto no coração e de novo juntos, as nossas mãos unidas para sempre, imortalizadas pelo tempo e marcadas por esta dor imensa que me esmaga a alma e por essa paz e sabedoria que consegui ver no seu olhar. Sempre unidos num abraço, num beijo e agora num toque que por força soberbo me marcou também a mim...
(A sua pele enrrugada - 07/2008)No calor a brisa que corria
Mostrava calma e melancolia,
Fachada desta cidade enojada
Embrutecida e degradada.
Absurdamente embebido em temor
Tremi quando vi a janela chorar de dor,
Mas, esventrado com tanto horror
Vi me derrotado por aquele calor.
A cidade era sem dúvida superior...
Para lá das Janelas,
A luz ofuscava o vicio,
Desfocado
Como um quadro.
Pintado a podridão
Sobre solidão.
Para lá das Janelas,
As almas consomiam-se
Consecutivamente,
Irracionalmente,
Na inércia interesseira
No jogo, na cegueira...
Para lá das Janelas,
A masmorra,
A catarse.
Para lá das Janelas,
A perversa cidade,
A crueldade.
(A Cidade - 08/2008)
pinto uma imagem na minha cabeça
quando sinto o roçar da tua t-shirt
a ponte caí, nós permanecemos
eu levo dois tiros, tu não choras
os meus olhos abrem-se à escuridão
vejo a luz do teu rosto já molhado
enquanto as minhas forças se vão
derramas o meu sangue apaixonado
agora só quando eu voltar
sim, quando eu voltar a sonhar
no dia em que tu me chamares
ficaremos para amar
(Ficaremos para Amar - 10/2008)
I
esta cidade me embriaga
estas ruas me abençoam
este povo que me acompanha
é o mesmo que me traí
esta cidade que me ganha
aos meus pés ela caí
aqueles que me rogam
como os meus voam
vivem nesta efemeridade
do nascer do sol espanhol
e da italiana sonoridade
II
vivem para serem bajulados
cospem no prato de quem os quer
de quem nunca precisou deles
vivem para serem condecorados
e rasgam argumentos banais
mas jamais serão mais
que aquilo que já são!
III
arrastam se por mim, porque são facilmente atraídos
encontram-se aos montes pelo chão caídos
esmolam por um sorriso, imploram um olhar
choram, suplicam e gritam quando passo
no meu snob e rude andar
é cruelmente tudo aquilo que faço
para quem não me apetece amar
IV
os que me abençoam gozam esta era
sabem que a cidade nos espera
e que o mais, não podem conhecer
aquilo que sou eu dou
aquilo que tenho eu mostro
renasço a cada momento meu
na esperança de que tudo o que faço
saía um dia do desprezo dos demais
e venha a ser a ostentação de outros tais
V
juro que não vos vou roubar
não exijo mais de vós
do que aquilo que me quereis dar
pouca hipocrisia, sim
pouca arrogância, sim
projectos de gente longe de mim
aprendam porque tudo o que vos falta
tenho eu demais, ajoelhem-se
sim, roguem perdão
porque o meu tempo terão
mas a minha vida não
(Os que me abençoam I até V - 09/2008)
Entardecia já quando no meu papel de mero turista decidi visitá-lo, não podia perder a oportunidade de revê-lo. Um velho impulso conduzia-me, sempre soube que ali estavam as minhas raízes, que era naqueles escombros que jazia a minha infância. Subi a calçada entre a penumbra esquecida pelo nevoeiro que deixava ao longe perfilhar meandros do que se assemelhava a uma catedral. A casa do insigne don Simon era sem dúvida um assustador anacronismo perdido no espaço, terrorificamente moldado pelo génio da solidão e da perda. Estratificado em pedras sombrias, olhava-me de soslaio como se visse em mim um inimigo. Decidido a todo o custo a forjar uma entrada subtil naquele casarão abandonado, estava de fronte ao portão principal que exalava ainda os trabalhos a ferro flamejante. A fachada emergia sob uma cortina de vapor tépido, abotoei o casaco até ao pescoço e percorri o jardim em memórias secas e tremidas do que fora, ao transpôr as paredes húmidas e senhoriais do velho casarão quase senti o toque terno e saudoso do meu avô. Aquela casa era a alma e a sombra de don Simon, atónito, fechei o olhos e mergulhei num mar de silêncios, entrelaçando na memória as fotografias e frases que mantinham tudo aquilo de pé...
(Origens - 01/2009)Amável ser que tanto odeias
Anjo negro porque não a raiva?
Sente o cheiro sedento de ti
Anjo negro de que foges?
Corres na luz da sombra perdida
Cavalgas na tua inabalável fé
Fúria eternamente contida
É por seres anjo negro, não é?
Falta-te uma força, a firmeza
Seguro do teu dom pintas a pena e dor
O quadro da tua certeza
Aquela que te permite viver
Aquela que te impede de ser
Anjo negro, Anjo negro
Por vezes louco, outras vezes sensato
Faz melhor
Torna-te ignorante, imbecil e malvado
Porque o mundo não suporta os bons
Sê amante cruel e vil
Vai e vive , nunca subestimes o teu dom
(Anjo Negro - 01/2009)
Aqui, o vento
Cala a voz perdida no silêncio
A voz que me levava ao firmamento
Fogo do tempo
Foge do medo e esconde-se no mar
Rompe a saudade
Mas não consigo perdoar
Ela prende-me a ti, imploro piedade
Agora longe da razão
Entrego-me à paixão
(Solta-se a Voz - 11/2008)
Encostou a cabeça nos joelhos cansados
Tinha as mãos prostradas, enterradas.
Aos pés caiam as gotas salgadas
Efémeros pingos contados
Dos dias que lhe restavam
E que não o amavam
(Triste quero viver... - 11/2009)
Ayer en la calle yo vi un hombre sin miedos
Y vi también más allá un alma sin valores
Ayer la calle sucia tenía restos de mis secretos
En la misma calle donde una mujer estaba vendiendo sus dolores
Y en la misma calle donde el hombre olvida sus miedos
Estaba yo cambiando mis valores por más secretos
(Desconfianza - 12/2009)
O trilho tem o sentido dos meus pés
Porque para tão longe fui
Estou onde não posso voltar
Nem partir. E conto até dez
E volto a contar.
Quem lá foi sabe bem
Quem viu sabe também
Que não se pode fugir
Nem repetir
É errado, e o controlo é demasiado
Demasiado pouco para tal escuridão
Demência. Impertinência do desvario
Implante de outro eu auto destrutivo
Vagabundo de outro mundo de solidão
Desespero. Retracção. Delírio.
(No Fundo Onde Outros Não Estão - 03/2010)
*António Sengo.
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