Entardecia já quando no meu papel de mero turista decidi visitá-lo, não podia perder a oportunidade de revê-lo. Um velho impulso conduzia-me, sempre soube que ali estavam as minhas raízes, que era naqueles escombros que jazia a minha infância. Subi a calçada entre a penumbra esquecida pelo nevoeiro que deixava ao longe perfilhar meandros do que se assemelhava a uma catedral. A casa do insigne don Simon era sem dúvida um assustador anacronismo perdido no espaço, terrorificamente moldado pelo génio da solidão e da perda. Estratificado em pedras sombrias, olhava-me de soslaio como se visse em mim um inimigo. Decidido a todo o custo a forjar uma entrada subtil naquele casarão abandonado, estava de fronte ao portão principal que exalava ainda os trabalhos a ferro flamejante. A fachada emergia sob uma cortina de vapor tépido, abotoei o casaco até ao pescoço e percorri o jardim em memórias secas e tremidas do que fora, ao transpôr as paredes húmidas e senhoriais do velho casarão quase senti o toque terno e saudoso do meu avô. Aquela casa era a alma e a sombra de don Simon, atónito, fechei o olhos e mergulhei num mar de silêncios, entrelaçando na memória as fotografias e frases que mantinham tudo aquilo de pé...
*Antonio Sengo.
0 comentários:
Postar um comentário